Um conhecimento geral sobre a composição de um shampoo, bem como dos ingredientes mais comumente utilizados, pode ajudar na hora da escolha do melhor produto para suas madeixas. Isso porque, como vimos no post sobre os tipos básicos de shampoos, a variação do uso de alguns componentes, como os tensoativos ou os agentes condicionantes, é responsável por definir a função primária de um determinado produto.

Para começar, é preciso perceber que, na composição de qualquer shampoo, os ingredientes podem ser divididos em 2 grupos: ingredientes que estão ali para agir no cabelo e ingredientes que estão no shampoo para melhorar características do próprio shampoo.

Grupo 1: Ingredientes para o Cabelo

  • Tensoativos ou Agentes de Limpeza (veja aqui um post super completo sobre agentes de limpeza)
  • Agentes Condicionantes (também conhecidos como engordurantes ou sobre-engordurantes)
  • Ativos Antimicrobianos (em geral, anti-fúngicos usados em shampoos anti-caspa)
  • Vitaminas e Sais Minerais
  • Proteínas e Aminoácidos
  • Óleos e Manteigas
  • Silicones
  • Protetor Solar

Grupo 2: Ingredientes para o próprio Shampoo

Neste grupo temos ingredientes que são adicionados ao shampoo para efeitos de formulação. Isso quer dizer que estes ingredientes são necessários para que o shampoo tenha uma boa aparência geral, boa consistência, viscosidade, aroma, textura, cor, forme a quantidade desejada de espuma, não seja atacado/infectado por micro-organismos e não “desande” (pense em uma maionese ou molho talhado… você não ia querer passar algo com este aspecto nos seus cabelos, certo?!). São eles:

Veículo ou Solvente:

Que no caso dos shampoos, é água. É o ingrediente presente em maior quantidade em um shampoo, em geral representando entre 60 a 80% da composição.

É comum que shampoos naturais e especialmente os naturais-orgânicos, substituam parte desta água por algum extrato vegetal ou hidrolato/hidrosol (subproduto do processo de destilação de plantas aromáticas). Estes compostos não apenas ajudam a compor a fragrância, geralmente natural, destes produtos, como também podem agir como hidratantes (a depender do extrato ou hidrolato).

Espessantes (também chamados de Engrossantes, Estabilizantes e/ou Agentes de Viscosidade):

Com tanta água em sua composição, é preciso adicionar algo para “engrossar” o shampoo. Afinal, ia ser bem difícil lavar os cabelos com algo líquido, não é?!

P.S.1: Aqui funciona bem parecido com o uso de amido de milho (Maizena) numa receita. Aliás, muitos dos espessantes utilizados na formulação de shampoos também são usados pela indústria de alimentos, como a goma xantana e a pectina.

P.S.2: É nesta categoria que está o cloreto de sódio, ou sal de cozinha. O sal foi “perseguido” por algum tempo depois que uma “lenda urbana” sugeriu que ele apresentasse malefícios aos cabelos, sobretudo pós-química. A lenda parece desmitificada, mas alguns fabricantes seguem mencionando nos rótulos “shampoo sem sal”. Entretanto, além desta informação não significar nada de concreto à saúde dos seus cabelos, costuma ser um pouco “capcioso”, pois todo shampoo tem sal, não o de cozinha, mas há vários outros, sulfatos, nitratos, acetatos, cloretos, etc.

Formadores ou Estabilizadores de Espuma:

No mundo do shampoo é assim “espuma é bom e todo mundo gosta”. É ou não é?! O consumidor brasileiro tem fama de ser um dos mais apaixonados por espuma… Mas é preciso cuidado com nosso ávido desejo por  espuma.

Você poderia deduzir que, se há agentes de limpeza/tensoativos no shampoo, a espuma estará sempre presente. E isso é, em parte, verdade. Só que em termos moleculares (calma, não vou empolgar), e de forma simplista, é como se as moléculas de tensoativo se dividissem entre as tarefas de formar a espuma ou limpar os fios. Assim sendo, muitas vezes, muita espuma significa adicionar ao shampoo mais tensoativo ou usar tensoativos mais espumógenos (formam mais e melhor espuma) que, em geral, são mais agressivos à pele e aos fios.

Outra tática dos formuladores, para não correr o risco de desapontar na espuma, é utilizar compostos específicos, conhecidos como formadores ou estabilizadores de espuma. Compostos como o Cocamide DEA ou MEA garantem as bolhinhas e, claro, a nossa satisfação. Porém, estes compostos, chamados de etanolaminas, foram apontados como possíveis cancerígenos…

A Agência de Proteção Ambiental da Califórnia (California EPA – sigla em inglês), por exemplo, disponibiliza, anualmente, uma lista de compostos que, segundo eles, possuem potencial de causar câncer ou toxicidade reprodutiva. E advinha quem etá na lista desde 2012? Pois é… nosso amigo Cocamide DEA.

Sei o que você deve estar pensando: as bolinhas não valem esse risco!!

Umectantes:

Aqui pode ocorrer uma confusãozinha… dependendo da concentração, agentes como glicerina, sorbitol ou sodium PCA podem agir como agentes hidratantes para os fios (neste caso, devem estar em alta concentração). Já quando estão presentes em baixas concentrações, são umectantes do próprio produto, ou seja, estão ali para evitar que o shampoo “empedre” ou fique com uma consistência estranha.

Quelantes ou Sequestrantes:

Estes compostos se combinam e inativam íons metálicos, evitando reações químicas indesejadas e estabilizando os produtos. São, portanto, adicionados aos cosméticos para prevenir alterações de aparência, além de evitar sua oxidação e deterioração.

P.S.3: Quelantes também podem ser adicionados aos shampoos de limpeza profunda, como forma de auxiliar o trabalho de remoção de resíduos que se depositam nos fios (e, neste caso, devem ir lá pro grupo 1, dentro da categoria “agentes de limpeza”).

Conservantes:

Pode não parecer para você, mas shampoos são muito apetitosos para um fungo ou uma bactéria. Por isso, para inibir o crescimento de micro-organismos durante a fabricação e a estocagem, ou para proteger os produtos da contaminação durante o uso, faz-se o uso de substâncias conservantes. Sem conservantes, os shampoos seriam perecíveis e, por isso, seu uso poderia ser perigoso, como uma fonte de infecção.

Por outro lado, é sabido que diversos conservantes (na verdade quase todos) podem ser prejudiciais à saúde e, especialmente, causar irritações e alergias às peles mais sensíveis. Por conta disso, há uma tendência atual em se buscar produtos com os conservantes menos danosos e para os quais não desenvolvemos menor sensibilidade. Mas isso não é lá muito fácil, e o “arsenal” de formulação, neste aspecto, é restrito.

Na prática, o que encontramos nas lojas, em sua maioria, são shampoos que contém sim algum tipo de conservante danoso. Cabe a nós escolher consumir os produtos que utilizam os conservantes derivados de fontes naturais (como os orgânicos certificados) ou estar atento aos rótulos e perceber para qual dos conservantes mais comumente utilizados somos menos sensíveis.

Quer saber mais sobre conservantes? Então leia este post que preparamos pra você: shampoo sem parabenos

Fragrância e Corantes:

Costumam representar menos de 1% da composição do shampoo. Entretanto, acredita-se que sejam responsáveis por 90% do sucesso de vendas de um produto. Corantes e perfumes (especialmente os sintéticos) não são necessários aos cosméticos, pois sua função é apenas deixar o produto mais atraente. Para piorar, muitas pessoas desenvolvem alergia, irritação e/ou sensibilidade a estes compostos.

Agora que você já está “craque” em composição, vamos conversar sobre o mais importante dos ingredientes de um shampoo, representando de 30 a 40% da formulação. Sabe de quem estou falando? Dos surfactantes, tensoativos ou detergentes. Acesse aqui o post!