Antes de iniciarmos a conversa sobre a composição do condicionador, vale à pena dizer que ele tem a função de complementar ou imitar componentes que temos naturalmente nos nossos fios. Estes componentes são comprometidos ou retirados pelas agressões do dia a dia, como poluição, radiação solar, água do mar, piscina, etc.

Bora lá conhecer um pouco destes componentes e funções?

Sebo

A principal função do condicionador é complementar o sebo natural do cabelo. Expelido pelo couro cabeludo, o sebo tem o papel de hidratar e lubrificar o fio, preservar sua estrutura e mantê-lo macio, brilhante e fácil de manejar. Ele pode ser insuficiente nas seguintes situações:

  • pessoas com cabelos secos (produzem naturalmente menos sebo);
  • o comprimento do cabelo é mais longo, e o sebo não é suficiente para chegar até a ponta do fio;
  • a forma do cabelo (ondas, cachos) o desafia adicionalmente para chegar até as partes mais distais do couro cabeludo;
  • houve remoção por agentes químicos (colorações, produtos para alisamento, shampoos de limpeza profunda, ou shampoos tradicionais com altas concentrações de detergentes aniônicos agressivos como os sulfatos).

Componentes estruturais

O condicionador tem ganho um papel extra, de carrear substâncias que assumem temporariamente o papel das que foram perdidas por um fio danificado e poroso.

Para entender melhor esta segunda função dos condicionadores, vale à pena lembrarmos da estrutura dos fios.

Eles têm 3 regiões: de fora para dentro, a cutícula, mais externa, o córtex, que constitui a maior parte da massa capilar, e a medula, que é o eixo central, e está presente nos fios mais grossos. Sua constituição é basicamente proteica (tendo a queratina como a principal proteína), contendo também lipídios, água e micronutrientes. O córtex se organiza na forma de fibras espiraladas, o que ajuda na capacidade elástica do cabelo. A cutícula se organiza em camadas ou escamas sobrepostas, como as telhas de um telhado, e protege o córtex.

Toda esta estrutura é morta, ou seja, não há irrigação sanguínea nem a capacidade de regeneração de células. Isto é, quando o fio é danificado, ele não pode ser regenerado de forma definitiva. O que podemos fazer é tentar controlar o agravamento do dano, e também fazê-lo parecer mais bonito.

Fazemos isso oferecendo substâncias que ocupam o lugar, temporariamente, de outras que foram perdidas. Digo temporariamente porque estes compostos não conseguem ser definitivamente ligados à estrutura capilar. Quando o cabelo é limpo e enxaguado, estes compostos são levados com a água e expõem novamente os poros dos fios.

Vamos então à fórmula-base dos condicionadores!

Surfactantes catiônicos:

Ingrediente clássico, proporciona suavidade aos cabelos. Com a exposição diária a agressores, o fio fica carregado negativamente, mantendo aberta a cutícula e expondo o córtex. O surfactante catiônico oferece sua carga positiva ao fio, ligando-se a ele e neutralizando-o. Promove assim o fechamento da cutícula, controla a eletricidade estática, e devolve penteabilidade e brilho ao fio.

O brilho tem a ver com o alinhamento das camadas, que reflete melhor a luz.

A carga negativa aparece pela exposição a agentes químicos alcalinos usados em alisamentos e colorações, incidência de raios solares, contato com poluição, cloro de piscina, ou sal, shampoos de limpeza profunda, shampoos de rotina com detergentes agressivos, e até pela fricção e estiramento causados pelo manejo diário de pentear, esticar, prender.

Exemplos: íons quaternários de amônio, como distearoylethyl dimonium chloride, behentrimonium chloride, e cetrimonium chloride.

Emolientes:

Substitutos ou complementares ao sebo natural. Agentes lubrificantes, amaciam e ajudam a desembaraçar os fios. Formam um filme ou película hidrofóbica na superfície da cutícula, protegem o cabelo, e impedem a entrada ou saída de água. Dão brilho, através do alinhamento da cutícula, e por sua característica natural refletora de luz. Devem ser observados e escolhidos para cada tipo de cabelo; em excesso dão aparência de sujo e reduzem o volume.

Fios danificados, se não protegidos por uma película hidrofóbica, permitem entrada e saída excessiva de água, que pode causar dano capilar.

Exemplos comuns: silicones, álcoois graxos, óleos e manteigas vegetais.

Hidratantes e umectantes:

Devolvem água para o cabelo, aumentando seu volume e resiliência (capacidade do fio voltar à sua forma original depois de esticado). O calor e a baixa umidade do ambiente retiram água dos fios. Agentes hidratantes têm alto teor de água e a levam para dentro do fio. Umectantes têm grande afinidade por ela, e, quando disponível (como no caso de um condicionador, que é uma solução aquosa), carreiam-na consigo também.

Preferencialmente devemos usar um umectante sempre junto a um agente formador de película protetora. Pois em situações extremas de umidade, o emoliente pode prejudicar o fio – inchando demais o cabelo com excesso de absorção de água em ambientes muito úmidos, ou retirando-a de dentro do fio e oferecendo ao ambiente em lugares com baixa umidade.

Exemplos comuns: glicerina, propilenoglicol, sorbitol, xilitol, pantenol, extratos e sucos vegetais.

Ingredientes específicos:

proteínas e aminoácidos:

Ótimos umectantes (sobretudo as proteínas hidrolisadas, de tamanhos menores), e podem também preencher temporariamente os poros na cutícula danificada. Quanto menores as moléculas, maiores as chances de penetrarem na estrutura da cutícula e protegerem o córtex.

Como o cabelo é um tecido morto, não trazem benefício de restruturação ou correção definitiva, não importa o tipo de proteína – queratina, elastina, colágeno, etc. Serão sempre retiradas nos processos de lavagem dos fios.

Proteínas de tamanhos maiores devem ser evitadas por pessoas com cabelos grossos, por terem menor capacidade de doar água, e correrem o risco, ao contrário, de enrijecer o fio e quebrá-lo.

Exemplos: proteína de trigo, proteína de arroz, proteína de soja.

vitaminas:

Assim como os outros compostos, não há ligação definitiva com a estrutura dos fios. O pantenol pode ser usado como umectante. Algumas podem ter ação antioxidante no couro cabeludo se puderem ser absorvidas – podem funcionar em formulações leave-in, se a textura gordurosa não for um problema para o couro ou para a estética dos fios.

Vitaminas antioxidantes: A, E e C

Ingredientes para melhorar a aparência e a estabilidade da própria formulação:

Solventes (que podem agir simultaneamente como hidratante), espessantes, fragrâncias e conservantes. Veja o post da formulação básica de um shampoo para saber sobre eles.

PS – Cada cabelo é um cabelo, e vai exigir um tratamento diferenciado, sobretudo com relação a emolientes (óleos, manteigas e silicones) e hidratantes/umectantes. Observe-se. Experimente texturas e produtos. Veja o que lhe agrada e o que funciona para você. Leia os rótulos dos produtos e perceba os ingredientes que fazem diferença. Pense as suas escolhas. Se possível, para você e para o meio ambiente.

 

Referências:

https://cosmeticcomposition.com/2017/02/22/conditioner-composition/

https://www.naturallycurly.com/curlreading/ingredients/the-ultimate-guide-to-humectants-and-hair

Gavazzoni Dias MF. Hair cosmetics: an overview. Int J Trichology. 2015;7(1):2–15.

Draelos ZD. The Biology of Hair Care. Dermatol Clin. 20000;18(4):651–8.

Begoun, P. Don’t Go to the Cosmetics Counter Without Me. Beginning Press, 2012.