O que está por trás do preço dos produtos da Tero?

Comprar é um ato político. E por isso não devíamos comprar um produto sem alguma reflexão sobre seus impactos sobre o meio ambiente (fonte de matérias primas, biodegradabilidade, destinação do lixo), sobre nossa saúde (uso de compostos nocivos versus seguros) e sobre a sociedade (por trás de cada produto há pessoas que trabalham para que ele chegue às nossas mãos).

O sábio e inspirador Joan Melé, autor do livro Dinheiro e Consciência, disse numa entrevista que “Não existe produto barato. Se algo é barato pra você, é porque algum ser-humano ou o planeta estão pagando este preço”.

Vira e mexe somos surpreendidos por notícias vergonhosas em relação a empresas que colocam a lucratividade na frente das pessoas (i.e. produtos ofertados a baixos preços às custas do trabalho de pessoas em péssimas condições). Mas elas não fazem isso sozinhas. Sempre que decidimos comprar algo única e exclusivamente pelo preço, corremos o risco de estar contribuindo para este sistema.

Quando passamos um produto no caixa, podemos, ou não, gerar riqueza coletiva ao país. Mandamos uma mensagem às empresas do que queremos, do que nos importa, de qual caminho queremos para o mundo e fazemos pressão para que elas nos ofereçam produtos de acordo com o que acreditamos. Cada compra tem o potencial de estimular a economia em uma determinada direção.

Estamos mais despertos em relação ao nosso poder como consumidores e, por isso, quero compartilhar com você, de modo transparente, porque o nosso produto é cerca de 4 vezes mais caro que um shampoo comum de supermercado.

1. Ingredientes:

Este é o primeiro item que vem à nossa cabeça quando pensamos no custo de um cosmético orgânico. De fato, ingredientes orgânicos são mais caros que os naturais e estes, em geral, mais caros que os sintéticos.

Para exemplificar, consideremos um shampoo, cujo ingrediente principal, são os agentes de limpeza ou surfactantes. Veja abaixo uma comparação breve do custo destes ingredientes:

*: dados retirados de sites da internet (ver referências no final do texto) e, para sites internacionais, conversão de moeda feita com base em valores de novembro de 2018. Variações de preço são esperados no caso de todos os compostos serem orçados em um mesmo distribuidor e caso a compra seja feita em escala industrial (valores do site são para compras em pequenos volumes). Entretanto, a proporção de preço entre os diferentes compostos não deve alterar-se significativamente.

A esmagadora maioria dos shampoos à venda em farmácias e supermercados são feitos à base de uma combinação entre lauril éter sulfato de sódio (Sodium Lauryl Ether Sulfate) e cocoamidopropil betaína (Cocamidopropyl Betaine). O custo destes agentes de limpeza, como vemos na planilha acima, é cerca de 4 vezes menor que a média dos agentes de limpeza aprovados para utilização em formulações orgânicas certificadas.

É importante notar que um cosmético que indique “feito com ingredientes naturais”, ou “x% de ingredientes orgânicos” poderia, em tese, utilizar agentes de limpeza mais baratos ou sintéticos. A terceira coluna da planilha acima só é válida para produtos certificados, já que as agências certificadoras, como Ecocert, Natrue e IBD, regulam quais tipos de agentes de limpeza podem entrar em uma composição, baseando-se na fonte da matéria prima, processo produtivo, biodegradabilidade, etc. Esta é uma das razões pelas quais produtos certificados orgânicos ou naturais tendem a ser mais caros que produtos ditos “naturais”, ou “de base natural”, que não possuam certificação.

2. Formulação:

Duas tortas de frango podem ser feitas com os mesmos ingredientes, mas as quantidades de cada um deles e a forma de fazer trazem um resultado bastante diferente (mais crocante, mais molhadinha, mais recheada, etc.). A formulação de um cosmético é mais ou menos assim também. Dois condicionadores podem apresentar a mesma lista de ingredientes e, ainda assim, possuírem efeitos diferentes em nosso cabelo.

A verdade é que a lista de ingredientes de um cosmético não nos diz muito sobre as quantidades de cada composto na formulação. Na nossa legislação, nem sequer é mandatório que os ingredientes sejam listados em ordem decrescente de quantidade, como acontece com os alimentos. Ou seja, o primeiro nome que é listado na lista de ingredientes de um shampoo não é, necessariamente, o composto presente em maior quantidade.

Para entendermos as diferenças de formulação, é preciso entender um bocadinho sobre formulações gerais de cada tipo de cosmético. Seguindo no exemplo do shampoo, ele é composto, basicamente, de:

  • Solvente (água, extrato, hidrolato – 65 a 85% da fórmula)
  • Agentes de limpeza (15-30% da fórmula)
  • Agentes condicionantes, vitaminas, proteínas, silicones, óleos vegetais (juntos: 1-5% da fórmula)
  • Agentes de viscosidade, estabilidade, quelantes, umectantes, conservantes, reguladores de pH, corantes e fragrâncias (juntos: 0,1-2% da fórmula)

O shampoo mais simples, é basicamente água, Sodium Lauryl Ether Sulfate, Cocamidopropyl Betaine, regulador de pH e conservante. Quanto mais compostos ativos, óleos essenciais, extratos e óleos vegetais existem numa composição, maior o seu custo de produção. Da mesma maneira, dependendo do tipo de agente de limpeza e sua quantidade na formulação, mais ou menos caro fica o shampoo.

Para que um cosmético possa ser certificado como orgânico segundo o referencial COSMOS (utilizado pela Ecocert, nossa certificadora, com parâmetros bastante desafiadores de qualidade orgânica, que certifica boa parte dos produtos orgânicos na Europa), é preciso que ao menos 20% de sua composição seja proveniente de agricultura orgânica. A água não entra na contagem. E nem os agentes de limpeza, pois não são compostos cultivados e sim gerados quimicamente a partir de fontes naturais.

Se olharmos novamente a composição de um shampoo, percebemos que para uma formulação poder se considerada orgânica ela precisa, necessariamente, sofisticar-se em termos de óleos e extratos naturais. É necessário que parte da água seja substituída por compostos naturais de procedência orgânica totalizando, no mínimo, 20% da composição final do produto.

Qualquer óleo essencial, óleo vegetal, hidrolato ou extrato vegetal possui custo superior à água. Sendo ainda, obrigatoriamente orgânico, seu custo eleva-se mais ainda.

Para o consumidor, isso representa um ganho, uma vez que estes compostos costumam trazer benefícios cosméticos, seja ação hidratante, emoliente, ativadora da circulação, etc.

Novamente aqui, percebemos uma diferença entre cosméticos certificados e não certificados. Um shampoo natural ou orgânico, sem certificação, pode simplesmente trazer ingredientes naturais ou mesmo orgânicos em porcentagens realmente baixas, de menos de 1%, sem que isso seja perceptível pela leitura dos ingredientes no rótulo.

3. Prazo de validade:

O prazo de validade dos cosméticos orgânicos certificados costuma ser menor que o dos cosméticos tradicionais/sintéticos. Isso porque os ingredientes botânicos, pouco processados, dos produtos orgânicos são mais perecíveis e quebram-se com mais facilidade ao longo do tempo. Além disso, por utilizarem conservantes menos potentes, estão mais sujeitos ao ataque de microrganismos.

Se a validade de shampoos e condicionadores tradicionais é de 2 a 3 anos, a de um cosmético orgânico certificado é de 1 a 2 anos. Este menor tempo de validade faz com que a produção e a comercialização dos produtos sejam feitas em menor escala e isso acaba encarecendo o produto final.

4. Produção:

Conforme introduzimos acima, a produção de cosméticos orgânicos certificados costuma ser feita em menor escala que a produção de cosméticos sintéticos tradicionais. A razão disso não é apenas o menor prazo de validade, mas também, o fato destes produtos ainda representarem uma tímida parcela do mercado.

A produção em pequenos lotes acaba aumentando o custo para o consumidor. Empresas que têm capacidade de produzir em larga escala podem reduzir os custos comprando ingredientes e embalagens em grandes quantidades. Ingredientes orgânicos ainda são bastante caros no Brasil por conta do mercado ser nascente e as produções modestas. Além disso, uma maior escala permite um processo altamente mecanizado de produção, o que barateia os custos com mão de obra. Produtos certificados requerem um processo produtivo específico, que é auditado pelas agencias certificadoras. Desta forma, se uma empresa produz produtos orgânicos certificados e não-orgânicos, precisará parar sua produção padrão para acomodar os pequenos lotes de orgânicos, o que também acaba encarecendo o processo.

5. Custo fixo:

Independente do tamanho da produção, há custos fixos que qualquer empresa deve cobrir para existir, como estrutura física, questões legais (registros, alvarás, licenças), tributárias, de contabilidade, infraestrutura digital, etc.

Obviamente o tamanho da produção, e consequentemente o volume de vendas, impacta no custo fixo (e.g. quanto maior o faturamento, maiores os tributos), mas, em geral, quanto maior a produção e o volume de vendas, mais diluídos estão estes custos fixos. Isso significa que, quanto menor é uma empresa, maior é o impacto do custo fixo no preço final de seus produtos.

No sentido oposto, produtos cosméticos artesanais, vendidos sem registro junto à ANVISA, muitas vezes sem alvará ou registro oficial, possuem um custo fixo mais baixo.

6. Certificações:

Por não haver uma legislação nacional que regule a produção de cosméticos orgânicos, empresas que decidem produzir este tipo de produto devem contratar agências certificadoras privadas. O processo de certificação é detalhado, trabalhoso e exige auditorias frequentes. E isso, obviamente, tem um custo e ele não é barato.

O custo de certificação é por produto e, portanto, quanto maior o lote produzido, mais diluído este custo fica. Para lotes pequenos, o custo acaba sendo mais alto e encarecendo o produto final.

Como vemos nos itens acima, há muita oportunidade para o barateamento dos cosméticos orgânicos no médio-longo prazo. Assim como vemos nos produtos alimentícios, é o próprio consumo de orgânicos que causará a queda dos preços. Mais consumo significa mais empresas investirem em tecnologia verde, o que demandará mais oferta de ingredientes, impulsionando novos fornecedores, e barateando os custos. Maior consumo significa lotes maiores, linhas mais diversificadas e diluição de custos, baixando os preços.

 

Referências:

https://www.thesoapkitchen.co.uk
https://engenhariadasessencias.com.br
https://www.imperiodasessencias.com.br
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