Já faz alguns anos que os apelos por shampoo sem sulfato começaram, especialmente fora do Brasil. E hoje, de fato, a maioria das linhas de shampoos ditos profissionais (aqueles que vendem no salão e, em geral, são importados) possui produtos “sulfate-free” ou livres de sulfatos. Mas o que significa, de fato, um shampoo ter ou não sulfatos? No que isso é benéfico? E será que é melhor sempre?

Shampoo sem sulfato: tipos de tensoativos

Comecemos esclarecendo que o termo “sulfate-free” ou shampoo sem sulfato refere-se aos tipos de tensoativos utilizados em uma formulação.

Conforme vimos no post sobre a composição básica de um shampoo, os tensoativos representam entre 30 a 40% de qualquer produto. E a razão disso é que eles são os grandes responsáveis pela ação principal esperada de qualquer shampoo: limpar o couro cabeludo e os fios. Sendo assim, basicamente, se não tem tensoativo, não tem shampoo.

Mas, além da detergência, os tensoativos possuem outras funções importantes, podendo agir como:

  • Agentes molhantes
  • Emulsificantes
  • Estabilizantes
  • Agentes formadores de espuma
  • Agentes condicionantes
  • Espessantes
  • Agentes perolizantes
  • Agentes anti-sépticos.

Sem entrar em detalhes químicos, todas estas ações dos tensoativos devem-se ao fato deles possuírem em sua molécula uma porção, ou cabeça, polar e outra porção apolar. A parte da molécula que é polar interage, então, com os polos da água. Já a porção apolar, é hidrofóbica (ou avessa à água) e, com isso, consegue ligar-se aos óleos.

       

Imagens: http://www.scielo.br

De forma simplificada, no caso da detergência, o que acontece é que a cabela apolar da molécula liga-se na gordura e oleosidade presente no couro e nos fios enquanto que a porção polar liga-se na água para que o conjunto tensoativo+gordura seja levado embora no enxágue.

Olhando para a representação do tensoativo na imagem acima, podemos imaginar que há muitas possibilidades de variações e combinações entre porções polares e apolares, e são estas combinações que acabam definindo quais das funções que listamos há pouco um tensoativo fará com maior ou menor eficiência. Ou seja, olhando pra molécula, conseguimos saber se um tensoativo é melhor tensoativo, formador de espuma, espessante, etc.

Para nós, o que importa é saber se um tensoativo é um tensoativo mais forte, mais fraco, se é um agente condicionante, se causa mais ou menos irritação. E para saber isso, vamos olhar a classificação dos tensoativos dependendo da sua porção polar:

Imagem: https://knowledge.ulprospector.com

Peço desculpas pela imagem estar em inglês, mas o que importa para nós aqui é olhar o desenho e não o texto. A imagem mostra 4 tipos de tensoativos. A cauda preta, que é igual nos 4, representa a porção apolar e não nos interessa neste momento. Já a porção que está colorida, é a polar e é a que vai definir a qual das seguintes categorias o tensoativo pertence:

  1. Tensoativos aniônicos: os quais possuem a cabeça polar carregada negativamente (sinal de menos na imagem).:
  2. Tensoativos catiônicos: cuja porção polar é carregada positivamente (sinal de mais na imagem).
  3. Tensoativos anfóteros: cuja carga depende do pH do meio (sinal de mais e menos na imagem).
  4. Tensoativos neutros ou não iônicos: os quais não são carregados eletricamente (o último da  imagem, sem sinal).

Veja na tabela abaixo um resumo dos prós e contras na utilização de cada tipo de tensoativo.

Resumidamente, para que fique fácil de lembrar, podemos dizer que os tensoativos mais fortes, são os tensoativos aniônicos, os mais fracos são os anfóteros e não iônicos, e os tensoativos com ação emoliente/condicionante (encontrados em shampoos para cabelos secos e até em condicionadores) são os catiônicos.

Como exemplo de tensoativos aniônicos, vemos na tabela um grupo chamado de “alquilsulfatos”, os quais incluem o Sodium Lauryl Sulfate e o Sodium Laureth Sulfate. Como vemos no nome, ambos incluem, na cabeça polar, o grupo sulfato. Além destes, os seguintes tensoativos com sulfato são comumente encontrados na composição de shampoos:

  • Ammonium Laureth Sulfato
  • TEA (Trietanolamine) Lauryl Sulfate
  • Ammonium Lauryl Sulfate

Desta forma, é esperado que você não encontre nenhum dos tensoativos listados acima em um shampoo sem sulfato.

Com isso, conseguimos entender uma parte da questão do apelo de um shampoo sem sulfato: tensoativos com cabeças polares contendo sulfato são, em geral, aniônicos, o que significa que, apesar de bons tensoativos, são fortes  (e com isso podem ressecar os fios) e costumam causar irritações à pele.

Mas será que só os tensoativos com sulfato são fortes?

Não. Há outros tensoativos fortes que, apesar de não terem sulfato, podem causar irritações.

Vejamos, então, mais detalhes sobre os principais tensoativos encontrados em shampoos:

Tensoativos de menor custo:

Estes são os tensoativos mais utilizados porque eles limpam bem e são baratos. No entanto, eles também são mais propensos a irritar a pele e ressecar o cabelo.

  • Sulfatos (padrão):

Exemplos: Sodium Lauryl Sulfate (SLS), Ammonium Lauryl Sulfate, TEA Lauryl Sulfate.

Excelentes espumantes e desengordurantes. No entanto, os sulfatos tendem a se ligar a proteínas da pele, o que dificulta o enxágue e pode levar à irritação cutânea.

  • Éter Sulfato (etoxilado):

Exemplos: Sodium Laureth Sulfate (SLES), Ammonium Laureth Sulfate, Sodium Trideceth Sulfate

Mais leves do que os sulfatos padrão, são bons limpadores, mas não espumam tão bem.

  • Sulfonatos de alfa olefinas:

Exemplos: Sodium C12-14 Olefin Sulfonate, Sodium C14-16 Olefin Sulfonate

Um dos tensoativos mais utilizados no mundo (não apenas em shampoos), porque têm baixo custo, alta formação de espuma, e são versáteis, tendo múltiplas funções. Em termos de suavidade, se aproximam dos éter sulfatos.

Tensoativos “doadores” de suavidade:

Estes tensoativos são comumente adicionados aos tensoativos de menor custo (listados acima) para reduzir a irritação cutânea. Com isso, tornam um shampoo contendo o SLS ou SLES muito mais tolerável à pele. Eles, portanto, conseguem melhorar formulações baratas deixando-as mais suaves.

  • Óxidos de amina:

Exemplo: Cocamidopropylamine Oxide

Têm excelentes propriedades de remoção da oleosidade. São utilizados como formadores de espuma. Eles não só melhoram a quantidade de espuma, mas também a qualidade da sua estrutura. Eles têm, como bônus, uma ação condicionante que persiste após o enxágue.

  • Betaínas:

Exemplo: Cocamidopropyl Betaine, Oleamidopropyl betaine

São limpadores eficazes, além de agirem como formadores de espuma e espessantes. Eles também podem reduzir a irritação dos outros tensoativos. Têm uma boa relação custo-benefício. A desvantagem é que a Cocamidopropyl Betaine está associada em diversos estudos científicos como um alérgeno causador da dermatite de contato.

  • Glutamatos:

Exemplo: Sodium Lauroyl Glutamate, Sodium Cocoyl Glutamate

Feito a partir do ácido glutâmico. É muito leve, mas não espuma muito bem.

  • Glicinatos:

Exemplo: Sodium Cocoyl Glycinate, Potassium Cocoyl Glycinate

Glicinatos são feitos a partir do aminoácido glicina. Eles são suaves, pois têm boa compatibilidade com a pele. (Não irritam como os sulfatos). Eles ainda mostram algumas propriedades de condicionamento. No entanto, eles não são estáveis em água dura e, por isso, não são muito comuns em formulações desenvolvidos na Europa e nos Estados Unidos, onde a dureza da água é mais relevante que aqui no Brasil (dureza da água é um parâmetro físico químico que tem a ver com a concentração de íons cálcio e magnésio na água).

  • Sarcossinatos:

Exemplo: Sodium Lauroyl Sarcosinate

Os sarcosinatos são feitos de um outro aminoácido, a sarcosina, que também é conhecida como glicina N-metil. A suavidade é semelhantes a dos glicinatos e possuem o mesmo perfil de formação de espuma. No entanto, foram relatados casos de dermatite de contato a partir do uso de sabonetes com sarcossinatos.

  • Sulfoacetatos:

Exemplo: Sodium Lauryl Sulfoacetate

Embora pareça uma alternativa “segura” ao Sodium Lauryl Sulfate (SLS), este tensoativo ainda apresenta algum risco de irritação da pele. Além disso, não é uma opção verde ou sustentável, uma vez que leva um longo tempo para ser degradado e polui os ecossistemas aquáticos.

  • Sulfosuccinatos:

Exemplo: Disodium Laureth Sulfosuccinate

Estes tensoativos formam bastante espuma, mas não são bons espessantes (não ajudam muito a criar viscosidade). São suaves, mas possuem algumas restrições em relação ao pH do meio onde serão adicionados, limitando seu uso em formulações.

  • Sultaínas:

Exemplos: Cocamidopropyl Hydroxysultaine, Lauramidopropyl Hydroxysultaine

Produzem espuma abundante e adicionam suavidade às formulações que contém tensoativos mais agressivos.

  • Taurato sódico de óleo de coco:

Exemplo: Sodium Methyl Cocoyl Taurate

Outro tensoativo à base de aminoácidos: a n-metiltaurina.

Tensoativos de maior custo:

Estes são os chamados “tensoativos premium”, são os mais leves e são tipicamente usados nos cosméticos mais caros.

  • Anfoacetatos (anfóteros):

Exemplo: Sodium Cocoamphoacetate

Nas concentrações usuais, os anfoacetatos não causam ardor nos olhos e é por isso que eles são comumente usados em shampoos de bebê. E embora seja comum ver este tensoativo listado como o primeiro tensoativo da composição (i.e. io que está em maior concentração), ele não é normalmente o único tensoativo da formulação. Isso porque os anfoacetatos precisam ser combinados com outros tensoativo para obter um desempenho adequado (por exemplo, não engrossam facilmente). O lado positivo é que formam boa espuma, são suaves e fornecem algum condicionamento aos cabelos. São também biodegradados facilmente, o que é um bônus.

  • Glucosídeos:

Exemplo: Decyl Glucoside

Estes são formalmente conhecido como alquil poliglicosídeos. Apesar de serem compostos sintéticos, são muitas vezes considerados naturais porque sua porção alquil pode ser feita a partir de óleo de coco, enquanto sua porção poliglicosídica é tipicamente derivado do milho. São não-iônicos (uma das razões pela qual são suaves) e quanto mais unidades de glicose contêm, mais suaves são. Formam espuma em quantidade satisfatória. Normalmente associados com uma betaína para engrossar e aumentar a espuma.

  • Isetionatos:

Exemplo: Sodium Cocoyl Isethionate, Sodium Lauroyl Methyl Isethionate

Talvez os melhores tensoativos suaves. Vários estudos têm demonstrado que são extremamente suaves para a pele e que produzem uma espuma muito cremosa. Podem ser irritantes para os olhos em concentrações mais elevadas, de modo que não vemos estes compostos sendo usados em shampoos de bebê. Fora esta irritação ocular em concentrações mais elevadas, podem ser considerados o “padrão ouro” dos tensoativos suaves.

Para simplificar, veja abaixo uma tabela listando tensoativos segundo sua “força”:

Considerando a descrição dos tensoativos e observando a tabela acima com cuidado, vemos que não há sulfatos listados na coluna “suaves”. Portanto, de uma certa forma, um shampoo sem sulfato indica que ele pode ter uma formulação mais suave. Mas é preciso cuidado. Observe que alguns tensoativos como o Sodium C14-16 Olefin Sulfonate (bastante comum em shampoos) é um tensoativo agressivo que não tem sulfato.

Além disso, como vimos no post sobre os tipos básicos de shampoo, uma formulação com tensoativos muito suaves pode não ser suficiente para livrar o cabelo e o couro cabeludo da sujidade ou de resíduos de produtos.

Em resumo, existe, de fato, alguma verdade em se dizer “shampoo sem sulfato = mais gentileza com a sua pele e seus cabelos”. Mas isso não deve, de maneira nenhuma, ser interpretado como “shampoos sem sulfato são melhores”. Cada cabelo, cada pele e cada pessoa é diferente, e nossos hábitos também interferem nas escolhas dos melhores produtos.